SÉRGIO MORO TEM O PINCEL, MAS FALTA ESCOLHER AS TINTAS

MORO TEM O PINCEL, MAS FALTA ESCOLHER AS TINTAS
Por Caio Brandão
A política, antes de se converter no espetáculo barulhento das urnas e na contabilidade fria dos votos, é a arte da composição. Os antigos já intuíam que governar não é impor uma vontade sobre o vazio, mas arranjar vontades diversas sob o mesmo teto — uma arquitetura delicada em que a ética fornece o traço e o pragmatismo dita a resistência das paredes. Vencida a batalha eleitoral, a autoridade conquistada confere ao governante o instrumento público para desenhar o destino coletivo. No entanto, o instrumento, por mais reluzente que seja, nada cria por si só: exige a matéria-prima da intenção, o matiz das escolhas e a cor dos compromissos que darão corpo à tela do poder.
Vamos abrir o baú: para Aristóteles, em suma, “a política é a ciência e a prática da organização da vida em sociedade, tendo como fim último a justiça, a virtude e o bem-estar comum de seus cidadãos”. Se colocarmos um morador da favela do Alemão, no Rio de Janeiro, diante desse conceito, talvez ele prefira a definição oferecida por Millôr Fernandes, jornalista e humorista, que dizia: “Política é a arte de impedir que as pessoas se metam no que lhes diz respeito”. Daí o surgimento da contravenção declarada, provavelmente uma forma de reação. Na capital dos paulistas, talvez os eleitores prefiram a definição de George Orwell, escritor e jornalista, para quem todas as questões são políticas e a própria política, em nossa época, está mergulhada em mentiras, evasivas, tolice, ódio e esquizofrenia. Nossa... pegou pesado o George. Mas nem mais leve pegou Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta, ao associar o analfabetismo político à ignorância que abre caminho para a miséria, o abandono e o político vigarista.
É aí que o pragmatismo pede passagem. Diante de teorias tão elevadas quanto desencantadas, ganha força a visão atribuída ao estadista Otto von Bismarck: a política é a arte do possível, do alcançável — a arte do próximo melhor. Mas o “possível” exige rodagem. Moro não foi vereador, não conversou com associações de bairro nem enfrentou, na Assembleia Legislativa, o furor de adversários despreparados, defendendo o impossível em prol de interesses pessoais. Tampouco foi hóspede da Câmara Federal, palco de vaidades, arranjos e corridas na direção indicada pela biruta dos interesses, que muda conforme o vento e aponta o caminho mais promissor. No exercício da judicatura, pautou suas ações pelas normas e pelos procedimentos próprios da magistratura — e de lá foi direto para um ministério construído sob o domínio de interesses variados, inclusive os subalternos. Não estava preparado para contornar os arroubos de um comandante desprovido de temperança, entrou no mesmo diapasão e acabou saindo sem perceber que o problema se resumia a uma troca de peças, expediente que os prefeitos dos grotões administram diariamente com o apoio de seus governadores, numa demonstração de poder historicamente sedimentada.
Mas, de bobo, Moro nada tem e aprende rápido. Deu a volta por cima, sacudiu a poeira e conquistou uma cadeira no Senado da República. Lá reaprendeu a ouvir — principalmente o que não estava sendo dito — e a ler o que se encontrava por trás das letras. Um curso rápido, mas eficaz. Do Senado partiu para a disputa pelo governo do Paraná, disposto a enfrentar figuras notórias: Ratinho Junior, com seu grupo político e a avaliação favorável que acumulou como governador; Maurício Requião, respaldado também pela história de seu pai e mentor político, Roberto Requião; e Rafael Greca, com todo o seu glamour e uma trajetória política que também lhe confere visibilidade.
Na Lava Jato, Moro fez história — com erros e acertos, que não podem ser ignorados —, porque, no dizer de Paulo Varassim, curitibano da gema, conquistou um capital de notoriedade capaz de içá-lo a posições de maior relevo sem muito esforço ou gastos financeiros exorbitantes. Convencido disso, foi à luta, deixando a semente de sua candidatura germinar naturalmente, adubada mais pela notoriedade acumulada no passado do que pela exposição atual. Sua imagem havia se transformado numa bandeira contra a inidoneidade de políticos, empresários e, particularmente, empreiteiros. Ratinho Junior e seu grupo, assim como Requião filho e seu entorno político, não conseguiram deter o avanço: a coisa já estava escrita nas estrelas.
E agora, José? E agora, Moro? Você fincou a bandeira no topo da montanha, mas o problema é que ela vai tremular conforme o vento, sob sol e chuva, frio e calor. Não dá para descer a montanha e começar de novo apenas pelo prazer do esforço e pela adrenalina da vitória. A guerra não terminou, está apenas começando.
Apesar da vitória em primeiro turno, ainda há ceticismo entre os paranaenses. Persiste a sensação de que falta alguma peça na engrenagem do poder: uma agenda explícita de metas e propósitos, uma equipe preparada e disposta a enfrentar desafios e os acordos de governabilidade, ainda por construir. Estes últimos talvez não se encaixem facilmente na visão de alguém acostumado a lidar com o cabal e a desprezar o periférico. Na política, os acordos são feitos mais nos recônditos da penumbra do que à luz dos discursos e dos verbos de ocasião. E é sempre bom lembrar a célebre frase atribuída a Otto von Bismarck: “Leis e salsichas: é melhor não saber como são feitas”.
Moro já tem o pincel. Resta saber se encontrará as tintas certas para pintar o Paraná que os eleitores esperam.

Caio Brandão, jornalista mineiro, observa o Palácio Iguaçu.











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