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A URNA DESLIGA A TOMADA

3h
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Imagem de um homem espantado ao lado de uma urna eletronica onde está escrito "não eleito", com seus sonhos de realeza desfeitos, após a derrota eleitoral

A URNA DESLIGA A TOMADA


De pijama, atendendo ao telefone que não toca.


Por Caio Brandão


Para o político profissional, o amanhecer nunca é um ato banal da natureza: é um rigoroso toque de alvorada. Ele se ergue da cama com a solenidade de quem vai assumir o controle do mundo, pronto para mais um dia de regência, empunhando sua invisível batuta de orquestrador de tudo e de todos. Acorda disposto a controlar até o controle que exerce, pouco se importando com opiniões e sentimentos alheios, ocupado apenas em felicitar a si próprio por todas as opiniões e sentimentos que, milagrosamente, convergem para seu entendimento pessoal. Julga que o sol só desponta porque ele assinou o decreto e que o tráfego das ruas obedece à sua cadência. Se pudesse, certamente baixaria uma portaria para disciplinar o movimento das nuvens.   


O poder, afinal, é uma máquina de fabricar esse ruído orquestrado. Tem sirenes que abrem caminho, secretárias de voz polida a espantar os importunos, o piscar incessante de luzes em ramais que nunca silenciam e uma corte provisória que aplaude até o lugar-comum mais estapafúrdio. É um tráfego denso de urgências fictícias. Quem habita o gabinete julga que o mundo gira em torno daquele eixo mecânico e que o silêncio fora dali é apenas uma anomalia a ser corrigida por decreto. Afinal, para quem se acostumou a dar ordens até ao relógio, a pontualidade do tempo é uma questão de obediência.   


Até que chega a urna, soberana e impiedosa, e desliga a tomada.   


«Não se chora apenas a perda do mandato; chora-se a súbita amputação do espelho.»

O luto do derrotado tem uma liturgia própria, raramente compreendida pelos manuais de psicologia. Não se chora apenas a perda do mandato; chora-se a súbita amputação do espelho. De um dia para o outro, o ex-dono do destino alheio descobre que sua opinião sobre a pavimentação urbana ou a macroeconomia deixou de interessar até ao porteiro do prédio. É o momento em que a realidade bate à porta sem pedir licença, trazendo debaixo do braço o mais implacável dos inventários: a irrelevância. E o pior é que, dessa vez, não há assessor disponível para receber a visita.   



Nos primeiros dias, o antigo potentado tateia o vazio com a desconfiança de um náufrago em terra firme. Olha para o aparelho celular sobre a mesa de mogno, agora livre de processos e expedientes urgentes, à espera do milagre eletrônico. O telefone está mudo. Não por defeito da operadora, mas por uma sutil e definitiva migração de endereços. A influência mudou-se para outro bairro, levando consigo os assessores, os pedidos de favor e as esperanças de ocupar lugar no carrossel. Até os cumprimentos parecem ter perdido o endereço. O antigo figurão descobre, com algum espanto, que sua agenda telefônica continua cheia, mas sua agenda política está vazia.   


Naturalmente, nem todos aceitam o veredito com estoicismo ou elegância. Há aqueles para quem a derrota é uma heresia matemática, uma impossibilidade lógica que exige um infindável rosário de explicações, sempre com a culpa devidamente distribuída entre terceiros. Estão tão acostumados aos holofotes que fizeram da luz o alimento de seus egos. São figuras incapazes de agradecer, pois entendem qualquer trabalho ou contribuição alheia como mera obrigação, um dever pelo qual não cabe reconhecimento. Afinal, no seu íntimo, tudo não passa da retribuição por um favor, uma nomeação ou uma promoção quase sempre imerecida, mas concedida por dever de ofício no altar das conveniências e dos compromissos de ocasião. Para eles, a gratidão é uma virtude dispensável e quando existe deve a eles ser creditada, os distribuidores de oportunidades.   


Para essa tribo insaciável, a cortina jamais se fecha: continuam convencidos de que estão sempre em cena, desempenhando o papel de figuras indispensáveis e notórias, incapazes de perceber que o público já foi para casa e que o teatro está vazio. São eles que morrem pela boca do próprio ressentimento, presos à ilusão de que a história lhes deve uma desforra. Se pudessem, contratariam novamente a plateia, desde que a conta fosse paga pelo erário.   


Fotografia em preto e branco de um gabinete executivo vazio e silencioso. A poltrona de couro está desocupada diante de uma mesa de madeira onde descansam papéis organizados, caneta, tinteiro e um telefone antigo mudo, sob a luz matinal que entra pelas frestas de uma persiana fechada.

«Percebe, talvez um pouco tarde, que nem toda pessoa que lhe estendia a mão desejava cumprimentá-lo: algumas apenas procuravam alcançar a caneta.»

   

Há, contudo, derrotados e derrotados. Entre eles surgem os derrotados vitoriosos — homens e mulheres que deixaram um legado de real utilidade, cumpriram com rigor seu papel e hoje podem caminhar pelas ruas sem temor. Não saíram devendo nada à praça; ao contrário, tornaram-se credores morais por terem entregue além da expectativa dos próprios apoiadores. E, se não foram ainda mais longe, não foi por falta de vontade, mas pelos inevitáveis obstáculos que costumam se interpor entre aquilo que é necessário e aquilo que efetivamente se consegue realizar. Afinal, governar também é descobrir que nem todos os desejos cabem no orçamento, e nem todas as boas intenções encontram passagem na burocracia.   


São esses os de têmpera mais fina, capazes de descobrir no ocaso a mais alta das venturas: a desobrigação cívica e a paz da consciência tranquila. Já não precisam explicar o inexplicável, prometer o improvável ou inaugurar aquilo que ainda não foi construído. Podem, enfim, deixar que outros cuidem dos discursos e das fotografias.   


Longe dos holofotes, o político pausado e inteligente percebe que a perda do poder pode abrir novas janelas e arejar o espírito de quem antes enxergava, mas não via. Descobre que não alcançava o verdadeiro significado das coisas e das pessoas, sempre subjugadas pelas tintas de uma caneta que, ora generosas, ora impiedosas, apenas faziam girar a engrenagem fria do poder. Percebe, talvez um pouco tarde, que nem toda pessoa que lhe estendia a mão desejava cumprimentá-lo: algumas apenas procuravam alcançar a caneta.   


«No ocaso, descobre-se que a maior vitória de um homem público não é permanecer no poder, mas ter a decência — e o bom humor — de sobreviver a ele com a alma intacta.»

Desconectado do aparato, ele percebe que a derrota eleitoral, em termos estritamente biológicos e existenciais, é o equivalente a receber alta de um sanatório a céu aberto. O silêncio, antes aterrorizante, transforma-se em música de câmara. O tempo, que pertencia por contrato aos eleitores insatisfeitos e aos partidos famintos por palanques, volta a pertencer integralmente ao seu legítimo dono. Não há mais reuniões às sete da manhã, telefonemas de madrugada nem a obrigação de sorrir para quem, até ontem, mal merecia um aceno. É uma espécie de aposentadoria compulsória do ego.   


Sentado à janela, de pijama, o ex-mandatário observa a rua com a benevolência de quem já não precisa fingir que se importa com a taxa de esgoto ou com a inauguração de uma praça pública. Pode dedicar-se ao sagrado far niente, cultivar plantas exóticas, reler os clássicos sem a obrigação de citá-los em discursos vazios ou simplesmente inventar cartas para remetentes imaginários, atendendo ao telefone que não toca. Se alguém perguntar por sua agenda, poderá responder, sem constrangimento, que está inteiramente comprometida com o ócio.   


E quer saber? Nunca houve som mais melodioso. No ocaso, descobre-se que a maior vitória de um homem público não é permanecer no poder, mas ter a decência — e o bom humor — de sobreviver a ele com a alma intacta. Afinal, há quem passe a vida inteira esperando uma ligação importante. E há quem, depois de perder o mandato, finalmente descubra a felicidade de não precisar atender.   



Retrato do cronista e articulista Caio Brandão, autor do texto no dialeticos.com.

Caio Brandão é jornalista, mineiro e sábio.

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