ABAIXO AS PERGUNTINHAS
- Arthur Virmond de Lacerda Neto

- há 9 horas
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ABAIXO AS PERGUNTINHAS
Por Arthur Virmond de Lacerda Neto
Muitos perguntam:
— Tudo bem?
— Tudo tranqüilo com a senhora?
— Como vai?
— Como está?
E coisas que tais, a título de polidez.
Essas perguntas quase sempre são meramente exteriores, vazias, insinceras; as respostas geralmente são igualmente vazias e mentirosas. Como perguntas, elas têm por assunto a vida do interrogado: são invasoras, invadem a intimidade alheia.
Com elas aparenta-se preocupação com o bem-estar do indagado, finge-se empatia; na verdade, ao indagador pouco se lhe dá como vai o indagado, que ele sente, como se sente. Não se indaga a sério, não se responde a sério: travam-se diálogos meramente protocolares e hipócritas.
Devemos cumprimentar, que significa externizar ao cumprimentado que demos por ele, que ele nos existe, que não o ignoramos; o cumprimento exprime consideração e educação. Mas não precisamos de saudar com perguntas, com nenhuma pergunta, com perguntas hipócritas a que se responde hipocritamente.
Nos anos 1970, em Curitiba, em família, entre amigos, quando havia intimidade e liberdade, indagava-se da vida do interlocutor, de sua família, de sua esposa, de seus filhos; cerca de 1980 tais indagações trivializaram-se, saíram do circuito dos íntimos para o de meros conhecidos ou estranhos, o que as tornava inconvenientes e indiscretas, o que por sua vez originou as respostas afirmativas:
— Vão todos bem.
— Estamos bem.
Tais respostas destinavam-se a encerrar esse diálogo e a opor barreira à indiscrição: eram defensivas e terminantes.
Era costume perguntar de “tudo” da vida alheia, com complementos típicos da altura:
— Tudo azul?
— Tudo em cima?
— Tudo na santa paz?
— Tudo na santa?
Posteriormente também variaram os complementos:
— Tudo legal?
— Tudo jóia?
— Tudo bom?
— Tudo tranqüilo?
— Tudo beleza?
Atualmente, essas perguntinhas são correntes e moentes na classe média baixa, pelo menos em Curitiba; é universal o estafadíssimo:
— Tudo bem?
— Tudo.
Entro em veículo de Uber, ao que o condutor assaca-me:
— Tudo bem com o senhor?
Ele era-me desconhecido, não tínhamos nenhuma amizade; puxou-me conversa e o tema era minha vida. Se tudo na minha vida estava bem ou não, não era da conta dele. Foi inconveniente e invasor. No espírito dele, ele foi-me polido; na verdade, foi fingido e invasor.
Conhecida indagou-me:
— Tudo tranqüilo com você?
Estava eu em péssimo momento; fiz-lhe má cara e não lhe respondi. Senti-me invadido; não queria lhe falar de minha intimidade nem mentir-lhe com resposta "Tudo bem", como a maioria faz.
Note: nos dois casos, o assunto era minha vida pessoal (poderia ser a sua, leitor). Por que principiar diálogo falando da vida do interlocutor? Há mil e um assuntos que não ela.
Raramente alguém quererá confessar seus problemas e falar de sua intimidade a todos quantos, o dia inteiro, fazem essas perguntinhas a cada um que topam. São perguntas mecanizadas, insinceras; quem pergunta raramente se importa realmente com o bem-estar do indagado e raramente lhe quer escutar os problemas.
Basta dessa hipocrisia, dessa invasão.
Quando respondemos que não está "tudo" "bem", perguntam: — Por quê?, o que é ainda mais invasor.
Talvez algum interrogado queira falar de sua vida e até desabafar, mas provavelmente não queira: as pessoas não saem por aí falando de seus problemas pessoais e íntimos para qualquer um.
Há limite do pessoal, do reservado, do íntimo, e do que o não é. Ora bem: essas perguntas, como perguntas, transpõem esse limite, invadem o pessoal, o reservado, o íntimo, pelo que as respostas, sempre positivas (“Vou bem”, “Tudo bem”, “Tudo ótimo”) são defensivas, pois com elas termina-se o assunto sem exposição da privacidade, por pior que o respondente esteja.
Em ambientes laborais e até em alocuções de YouTube alguns saúdam:
— Olá, pessoal, tudo bem com vocês?
Obviamente não se espera resposta, o que torna a pergunta desprovida de sentido, sequer como saudação.
Conclusão: são perguntas ou inteiramente vazias (como protocolo) e ou (em seu teor intrínseco) invasoras; as respostas são inteiramente vazias ou geralmente mentirosas.
Para a massa, para o homem de senso comum, são funcionais na sua robotização; para alguns, justificam-se pois iniciam o trato entre pessoas, com elas abre-se a interação, o que é verdade, mas pergunto: precisamos de fazê-lo com perguntas e com perguntinhas? Com perguntas e perguntinhas robotizadas, hipócritas, a que se responde robotizada e hipocritamente?
Não precisamos de pergunta alguma. “Tudo bem?”, “Tudo bom?”, “Tudo bem com a senhora?”, “Como vai?”, “Como está?”, “Tudo jóia?”, “Beleza?”, “Tudo em cima?”, “Tudo azul?” são cafonices.
Saudemos com saudações: bons-dias, boas-tardes, boas-noites, olá, oi, ôpa, salve!
Podemos indagar do bem-estar do interlocutor se e somente se a indagação for sincera, se tivermos receptividade para escutarmos-lhe empaticamente a resposta; se e somente se o momento for oportuno, se a circunstância foi azada, senão, não.
Cumprimentemos com cumprimentos, sem nenhuma pergunta. Nada perguntemos, nada respondamos; a ausência de pergunta não faz falta; a ausência de resposta não faz diferença. Saudemos com bons-dias, boas-tardes, boas-noites, olá, oi, salve. Não encetemos diálogo que tenha por assunto a vida do interlocutor.
Os comentários acima não se destinam a que você concorde com eles ou discorde deles; são para que você pense a respeito deles.

Arthur Virmond de Lacerda Neto é jurista, historiador e ensaísta. Mestre em História do Direito pela Universidade de Lisboa e bacharel pela UFPR, atuou por 25 anos na docência superior (UFPR/Uninter), destacando-se na docência de Direito Romano. Pesquisador de fontes primárias e defensor da tradição culta da língua portuguesa, é autor de diversas obras jurídicas, históricas e literárias, tais como A república positivista (2003), Educação lingüística (2022) e Revelações do cerco da Lapa (2025).










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