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MARIA KIRYLOWICZ VOLOSCHEN, PIONEIRA DA PÊSSANKA NO BRASIL

Cesto com diversas pêssankas ucranianas artesanais, exibindo desenhos geométricos detalhados e cores vibrantes como vermelho, amarelo, preto e verde.
Pêssankas tradicionais ucranianas: arte milenar preservada e transmitida através de gerações no Brasil.

MARIA KIRYLOWICZ VOLOSCHEN, PIONEIRA DA PÊSSANKA NO BRASIL


Emilio Gaudeda


NOTA DO EDITOR: Com fome, um homem vai à geladeira, pega dois ovos e faz uma omelete. Com pressa, ele os faz fritos, ou mexidos, ou cozidos. Joga as cascas no lixo. A operação mata-fome está encerrada, e não se pensa mais nisso. Mas pobres camponeses ucranianos em seus tugúrios lúgubres imaginaram outra utilidade para os ovos. Carentes de tudo, em suas vidas de labuta incessante, viram o ovo como um símbolo da vida em estado latente. Como a primavera após um inverno rigoroso. Um símbolo do renascimento, da vida após a morte. Em tempos pagãos, a gema era um símbolo do triunfo do Deus Sol sobre as trevas. O cristianismo o reciclou como símbolo da ressurreição de Cristo. Em um prosaico ovo, camponeses ucranianos acrescentaram cores, linhas e símbolos místicos. Nasceu a pêssanka.O pesquisador e historiador Emilio Gaudeda, em seu trabalho de resgate das vidas e da história da comunidade ucraniana no Brasil, traz a história de uma pioneira da pêssanka no Paraná, Maria Kirylowicz Voloschen, uma daquelas heroínas que nunca morrem.

Emilio conta a história:


Ela nasceu em Lviv, na Ucrânia. Seu pai, Miguel, veio ao Brasil antes, para ajeitar as coisas para a família. Ele aprendeu o ofício de sapateiro em Ponta Grossa e acabou se estabelecendo em Marechal Mallet, com uma loja de calçados e tecidos. Quando as condições melhoraram, ele trouxe a mulher e as filhas. O pai sabia que a educação era fundamental, e fez a filha estudar. Ela entrou no Grupo Escolar Dario Velloso, em Mallet.


Fachada frontal do prédio histórico de dois andares do Colégio Estadual Professor Dario Velloso, em Marechal Mallet, Paraná.
Colégio Estadual Professor Dario Velloso, em Mallet (PR), onde Maria estudou após imigrar para o Brasil.

Depois, os negócios melhoraram e ele a mandou estudar em Curitiba. Em 1947 (ela tinha vinte anos) passou a trabalhar como voluntária no Comitê Ucraíno da Cruz Vermelha para Auxílio à Vítimas da Guerra. Lá também estava o jovem Serafim. Neste mesmo ano ela se naturalizou. No ano seguinte, formada em Contabilidade, voltou para Mallet e passou a trabalhar na contabilidade da loja do pai. Casou-se com Serafim Voloschen em 1949 e passou a residir em Curitiba, onde foi sócia fundadora do Centro Brasileiro de Estudos Ucranianos.


No Centro, apoiada pelo marido, começou a difundir a arte da pêssanka no Brasil Era uma arte conhecida pela comunidade, praticada pelas famílias, para seu próprio consumo. Mas ela acreditava na necessidade de levá-la para fora dos lares. Criou o 1.º Curso de Pêssankas em 1957, nas salas da União Agrícola Instrutiva. Não havia material para todos os alunos, especialmente as canetas especiais para o desenho – chamadas “kistka” ou “pyssatchok”. Serafim sugeriu que usassem penas de canetas-tinteiro, o que Maria fez, com sucesso. Ainda hoje usam-se estas penas, na falta das pyssatchok.


Retrato em preto e branco de Maria Kirylowicz Voloschen sorrindo, usando colar de pérolas e blusa estampada.
Maria Kirylowicz Voloschen, pioneira na preservação e difusão da arte da pêssanka no Brasil. Em 1957 ela criou o primeiro curso, em Curitiba.

Foi fundadora e primeira presidente da Associação dos Artesãos de Pêssankas Ucranianas do Paraná, depois, secretária em língua ucraniana e de outros departamentos da Organização Feminina junto à União Agrícola Instrutiva. A pêssanka saiu do interior das famílias e logo passou a ser conhecida fora da comunidade ucraniana.


Incansável, foi diretora do Clube Ucraíno-Brasileiro. Professora da Subotna Chkola Léssia Ukrainka. Participava do coral do Grupo Folclórico Ucraniano de Curitiba – hoje Folclore Ucraniano Barvinok. Era da Associação Mariana das Senhoras da Igreja Católica Ucraniana Nossa Senhora Auxiliadora. Foi diretora do Museu Ucraniano de Curitiba, onde se dedicava à pesquisa e catalogação até poucos dias antes de seu falecimento.


Maria incansável, Maria estudiosa, Maria brasileira e ucraniana, Maria autodidata. Jovens e velhos precisando de um dicionário bilingue, como ela precisou quando chegou ao Brasil, com doze anos de idade. Onde o dicionário? Com quase setenta anos, Maria pôs mãos à obra. Junto com Simão Retcka inicia os trabalhos. Simão falece, Maria está sozinha na empreitada. Dez anos ela labutou, ajudada por seus filhos Nestor e Mirna e pela neta Iuhlianna Aline. O trabalho ficou pronto e foi lançado em 2007, na Livraria Curitiba, em edição financiada pela própria familia.


Livro de capa azul em pé sobre superfície de madeira com o título 'Dicionário Ucraniano - Português' e ilustrações de girassóis e araucárias.
Exemplar do Dicionário Ucraniano-Português, marco fundamental para a preservação cultural e linguística.

O Dicionário Ucraniano-Português/ Português-Ucraniano tem dois volumes, 30 mil verbetes em 1598 páginas. Havia 112 anos que a comunidade ucraniana aguardava a confecção deste dicionário. Ela o fez, numa idade em que a maioria das pessoas se entrega a Deus.


Maria Kirylovicz Voloschen foi uma heroína, e heroínas nunca morrem.



NOTA DO EDITOR: O trabalho de resgate da pêssanka, iniciado por Maria Kirylovicz Voloschen, repercutiu na Ucrânia natal. Lá, a arte havia sido esquecida nos grandes centros urbanos, em grande parte devido à repressão à cultura ucraniana durante o período soviético. Hostilizada como manifestação nacional, sobrevivera quase que somente em pequenas comunidades rurais nos Montes Cárpatos da Ucrânia e no Brasil, graças aos esforços de resistentes como Maria Voloschen. Uma nova geração, representada por Jorge e Iara Serathiuk, levou a arte à Ucrânia, promovendo cursos e gerando um revival da pêssanka, culminando com a declaração, pela Unesco, em 2024, de ser ela um Patrimônio Cultural da Humanidade (e um Patrimônio Imaterial do Estado do Paraná).

SERVIÇO: na Internet você encontrará sites dedicados à divulgação de pêssankas, inclusive de materiais para a prática. Experimente o Mundo das Pêssankas, criado e mantido por Vilson José Kovitski (de União da Vitória), onde você encontrará também materiais para a prática. O site Etnias Mundi vende produtos do Núcleo de Artesãos de Porto União. Para os curitibanos: a experiência mais bacana é comprar no Parque Tingui, no Memorial Ucraniano, ou na Feirinha do Largo da Ordem. Ao vivo e a cores.



SOBRE O AUTOR

Retrato do pesquisador e historiador Emilio Gaudeda.

Emilio Gaudeda é historiador, pesquisador e autor dedicado ao resgate da memória, tradições e história da imigração e da comunidade ucraniana no Brasil. A história de Maria Voloschen está em seu livro Heróis não morrem, que noticia personalidades da comunidade ucraniana no Paraná.

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