LUIZ FERNANDO FEDEGER IMPACTOU A BOCA MALDITA. VIROU LENDA CURITIBANA
- Hatsuo Fukuda

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LUIZ FERNANDO FEDEGER IMPACTOU A BOCA MALDITA. VIROU LENDA CURITIBANA
Hatsuo Fukuda
Uma das tradições da Boca Maldita, além do café nas manhãs de sábado, é pegar um exemplar do jornal Impacto, e folhear suas manchetes escandalosas. Normalmente dedicadas a políticos, mas eventualmente cobrindo figuras notórias da cidade.
A tradição de sisudez do curitibano não tem lugar no jornal: ele é escandaloso, ele é bem-humorado, é corrosivo e mal-educado. É, enfim, um sopro de ar fresco na hipocrisia curitiboca.
Circulando entre os grupos de habituês, o autor das tiradas bombásticas, o criador, proprietário e Publisher do jornal, Luiz Fernando Fedeger.
Uma das lendas que circulam na Boca Maldita é a história da origem do jornal Impacto. Luiz Fernando, ponta-grossense radicado em Curitiba, após dezenas de anos trabalhando em rádio, televisão, jornais impressos, ocupando todas as posições possíveis no meio jornalístico – na Rádio Difusora de Ponta Grossa, onde começou a carreira, em 1959, com dezesseis anos, ele foi redator, noticiarista, locutor esportivo e rádio-ator –, ele juntou alguns poucos caraminguás e se deu ao luxo de uma viagem a Londres.
Lá ele percorreu o circuito turístico que fazem todos os deslumbrados do mundo inteiro: andou pelo Hyde Park, onde viu excêntricos discursando; viu a estátua do Almirante Nelson, visitou a Torre de Londres, passeou de barco pelo Rio Tâmisa, assistiu a troca de guarda no Palácio Buckingham.
Mas o profissional e viciado incurável em jornalismo teve a atenção despertada pelos jornais. Não o multicentenário The Times (nós temos a Gazeta do Povo); não o politicamente correto The Guardian (nós tivemos o Correio de Notícias); o que despertou sua atenção foram os tablóides sensacionalistas ingleses, como o The Sun, de Rupert Murdoch, o magnata australiano.
Eles vendiam como água, reparou. E reparou como os bem-comportados leitores ingleses se divertiam com os escândalos reais ou imaginários dos ricos, das celebridades e da sacrossanta instituição da monarquia inglesa. A Inglaterra adora a monarquia, mas os ingleses adoram fazer fofoca sobre ela. E o The Sun, com seus escândalos reais ou imaginários, suas manchetes bombásticas, seus trocadilhos infames, era o jornal mais vendido na Inglaterra.
Ele seria o Rupert Murdoch curitibano.
Voltando a Curitiba, Luiz Fernando já tinha o que fazer para preencher o dolce far niente da merecida aposentadoria (que nunca ocorreu): criaria um tablóide e se dedicaria a espicaçar a sisudez e a hipocrisia curitiboca. Escandalosamente, à maneira do The Sun. E divertidamente.
Jornalista experiente, ele sabia que não conseguiria concorrer com a Tribuna do Paraná, jornal dedicado a crimes e esportes – era uma tradição na província, e ele não teria recursos para uma cobertura que rivalizasse com o jornal de Paulo Pimentel. E homem integrado à Boca Maldita, ele sabia que política e irreverência era o pão com manteiga fresquinho de seus habituês. Política e irreverência, então, seria a matéria prima do jornal.
Nasceu o jornal Impacto (o primeiro tablóide do Paraná), que passaria a circular todas as manhãs de sábado na Boca Maldita de Curitiba, e se tornaria, com o tempo, sua voz e sua imagem.

Na Boca Maldita temos um microcosmo da cidade de Curitiba. Os políticos sempre a frequentaram, e não apenas nos períodos eleitorais. Alguns com regularidade, outros intermitentemente, mas era comum vê-los por lá, conversando nas rodinhas, e interagindo com os frequentadores. Nunca, em todos os anos em que a frequento, vi hostilidade aos políticos por seus adversários, ou o assédio de eleitores aos seus representantes (os pedidos habituais clientelísticos).
A Boca Maldita é democrática. A Boca Maldita convive com as diferenças. Após cumprimentar amigavelmente um adversário político, em seguida, em outra roda de amigos, você o desancará – amigavelmente, claro. E assim segue a vida.
A polaridade radical hoje existente, entre bolsonaristas e lulistas, lá na Boca Maldita é bem conhecida. Ontem foi entre tucanos e petistas; um pouco antes, foi Collor e Lula; antes, Arena e MDB; nos anos cinquenta, foram lacerdistas e getulistas – aliás, alguns mais antigos lá estiveram ao pé da sacada do Braz Hotel, onde Getúlio pronunciou um discurso a uma multidão de seus seguidores – e, nos anos 40, a polarização foi entre Marmiteiros e o Brigadeiro.
A Boca Maldita não esquece. Sempre haverá um velhinho que esteve presente aos acontecimentos, e dele lembrará de preferência os detalhes sórdidos ou vexaminosos. E os narrará, às gargalhadas, a quem quiser ouvir. Com todo respeito.
Luiz Fernando não tinha dinheiro ou financiadores. Não havia uma empreiteira ou Prefeito ou Governador que bancasse sua aventura. Seria ele, sua experiência jornalística, seu conhecimento da cidade, sua vasta rede de amigos, seu feeling e, principalmente, sua irreverência. O jornal sairia na raça. Ele seria o editor, o redator, o diagramador, o revisor, o copydesk. Faria as manchetes, montaria as fotopotocas com os personagens do dia, seria o gerente financeiro, o arrecadador de fundos e o distribuidor, fazendo a entrega do jornal em condomínios de edifícios, hotéis, nos gabinetes do poder no Centro Cívico. Não tinha funcionários, nem secretária, nem office-boy. Era um homem, suas idéias e a disposição de levá-las ao público.
O público imediatamente comprou a idéia. Afinal, o jornal espelhava aquilo que a Boca Maldita é. Totalmente democrático, beirando à anarquia, ora criticando, ora elogiando, às vezes na mesma página (aliás, como acontece na Boca Maldita). A sisudez ficava fora do jornal.
O criticado de hoje poderia ser elogiado amanhã. Mas não é esta a corrente da vida? A política, como dizem os mineiros, é como nuvem; ora está de um jeito, ora de outro. E o jornal Impacto observava as nuvens cambiantes, cambiando também.
As vítimas da irreverência do Publisher amontoaram processos judiciais contra ele: foram pelo menos cinquenta, com os argumentos habituais contra a imprensa livre e independente. Pouco importa. Luiz Fernando Fedeger prosseguiu. Não seriam meras ações judiciais que o privariam da diversão de redigir manchetes chamativas e bem-humoradas no jornal, que seriam festejadas às gargalhadas no Café da Boca.
Lembro-me dele, sempre bem-humorado, no café ou na calçada da Boca Maldita, animadíssimo, conversando com amigos. Dizem que ele morreu, após 78 anos de uma vida intensa, de complicações da Covid. Mas não é verdade. Lendas não morrem jamais. E o Jornal Impacto aí está, com suas manchetes, para nos lembrar disso.

Hatsuo Fukuda, leitor voraz, adora jornais irreverentes como o Impacto.










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