Purismo em idioma!
- Arthur Virmond de Lacerda Neto
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Purismo em idioma!
Arthur Virmond de Lacerda Neto
Os idiomas formam-se com vocábulos próprios e com vocábulos peregrinos (oriundos de outras línguas). Aos do próprio idioma chamam-se vernacularismos e constituem a maioria; aos provenientes de outras línguas chamam-se peregrinismos, barbarismos, exotismos e estrangeirismos, e representam minoria.
Até certo ponto, é normal a introdução de peregrinismos, o que não significa ser normal e aceitável a incorporação de estrangeirismos quaisquer e sempre. Há de haver critério, discernimento e limite.

Lição de Cândido de Figueiredo:
É incontestável que, em todos os tempos e em todas as línguas, se têm realizado permutações lexiológicas, na proporção das comunicações internacionais.
A língua portuguesa não podia fugir a essa lei geral.
[...]
Há estrangeirismos e estrangeirismos.
Uns são imprescindíveis, e fazem parte do idioma nacional; outros convenientes, e do seu discreto emprego podem advir vantagens; outros, ainda, são apenas toleráveis, e procede louvavelmente quem os dispensa; e muitos há, muitíssimos até, que só se empregam por indesculpável ignorância ou por condenável desafecto à pureza da língua.[1]
A maioria dos exotismos em curso no Brasil é excrescente, por já haver em português equivalentes vernaculares. Diante de palavra genuína do português e outra, importada, a segunda é desnecessária; representa critério de purismo lingüístico preferir-lhe a primeira.
Sempre que em português há palavra (substantivo, verbo, adjetivo) e surge estrangeirismo dela sinônimo, aquela desaparece e este a substitui: os estrangeirismos concorrentes empobrecem o português, ao contrário do mito de que eles sempre somam ampliam o léxico.
Se inexistir palavra vernacular, o peregrinismo preencherá lacuna; no caso contrário, ele não se torna mais uma opção de comunicação, mas reduz-se à única expressão, pois os vocábulos autóctones a ele correlatos desaparecem quase por completo.
Sombreira, quebra-luz, velador, bandeira, alparluz, abaixa-luz, para-luz, tapa-luz, véu, existiam desde antes de que dessem de dizer abajur, do francês “abat-jour”.
Espetáculo, função, apresentação, número, concerto, foram quase de todo apagados por show. Quem ainda se recorda de fina flor, escol, nata, gema, em vez do galicismo elite (“élite”)? Detalhe (do francês “détail”) ostracizou miudeza, minudência, particularidade, pormenor, circunstância, individuação, especificação, por menor, por miúdo, pelo miúdo; “detalhadamente” fez preterir miudamente, minuciosamente, circunstanciadamente, particularizadamente; “detalhar” erradicou individuar, particularizar, circunstanciar, minudenciar, especificar, e (nos três casos) outras alternativas, análogas ou derivadas[2].
Líder (“leader”) ostracizou chefe, dirigente, maioral, cacique, cabeça, cabecilha, estratega, capitão, cabo, condutor, comandante, mestre, diretor.
Constatar, galicismo originário de “constater”, expeliu averiguar, apurar, certificar-se de, testificar, comprovar, confirmar, observar.
Ultimamente, o anglicismo visualizar (to visualize) extinguiu o verbo ver, seu particípio passado visto (visualizado) e o substantivo visões (visualizações); reverso apagou inverso, massivo cancelou maciço, força-tarefa apagou grupo de trabalho.
Há estrangeirismos de acepção, em que o vocábulo existe em português, finda seu sentido genuíno e passa a correr com o que tem no idioma alienígena, de que é imitado: o estrangeirismo aí modifica a acepção da palavra do português e a exclui. É o caso de impacto (do inglês impact), em lugar de efeito; evidência (do inglês evidence), em lugar de pista, indício, sinal, prova; eventualmente (do inglês eventually), em lugar de finalmente; potencial (do inglês potencial), em lugar de capacidade; pupilo (do inglês pupil) em lugar de aluno; salvar (to salve) em lugar de gravar.

Lição de Manuel Monteiro:
[...] saibamos ser mentira que acolher as palavras estrangeiras enriqueça a língua. São muitas as palavras (de português lídimo) que repelimos do uso corrente ante o deslumbramento provinciano que se rende aos pés da palavra com aroma estrangeiro, pelo que objectivamente a língua fica mais pobre [...]. Resultado: o afunilamento da língua e, com ele, o afunilamento do pensamento.
Isto foi dito e redito por quem estudou a nossa língua [...].
Perante cada palavra estrangeira ou formada com base numa palavra estrangeira, pergunte a si próprio: Acrescenta ela algum significado que não exista na nossa língua noutras palavras ? [...] O problema é o sem-número de palavras importadas que nada acrescentam a palavras anteriores do nosso idioma e que repelem do uso corrente (escrito e falado) tantas outras.[3]
A maior parte das palavras estrangeiras que por aí circulam nada acrescenta a palavras portuguesas ancestrais. Palavras estrangeiras (complot, event, implement, standardize), ou palavras copiadas do francês ou inglês e adaptadas à vestimenta morfológica portuguesa (“complô”, “evento”, “implementar”, “estandardizar”), tendem a afastar do uso corrente um número considerável (por vezes, gigantesco e para todos os paladares) de vocábulos portuguesíssimos. Resultado: o encurtamento do léxico.
Porquê mendigar tantas palavras ao inglês, ao invés de conhecer e usar palavras portuguesas com os mesmos significados ?
Eventualmente, o barbarismo preenche lacuna, por inexistir vocábulo equivalente em português, mas o que aí faz falta em português é palavra e não palavra estrangeira. Podemos e devemos procurar no léxico já existente a palavra autóctone correspondente ao exotismo em curso, usá-la e reusá-la. Caso inexista, hemos de:
(a) neologizar (criar palavra), com base em: I. prefixos e sufixos usados na língua portuguesa, II. radicais gregos e latinos, III. equipolentes, IV. imputação de sentido novo a palavra existente em português.
(b) traduzir sensatamente (mouse > rato; skate > prancha);
(c) aportuguesar (sfiha > esfirra).
Objeções ao purismo: 1) O estrangeirismo está dicionarizado e, portanto, legitimado. Resposta: os dicionários são depósitos de palavras e acepções, não são repositórios seletos de somente boas palavras e de boas acepções. 2) O estrangeirismo está consagrado pelo uso, incorporou-se ao idioma. Resposta: há maus usos, que jamais deveriam ter principiado e que devem terminar. 3) Sem os estrangeirismos não conseguiríamos exprimir o que eles exprimem. Resposta: em português há vocábulos para todas as necessidades: procure-os, aprenda-os, use-os; se deveras faltar vocábulo nacional, cria-se e, no limite, traduz-se ou adapta-se o estrangeirismo. 4) O purismo constitui xenofobia. Resposta: nada tem que ver uma cousa com a outra; trata-se de preferir vocabulário nacional, já existente, a importações dispensáveis, e de (no limite) traduzir ou adaptar o estrangeirismo.
A maioria dos barbarismos no Brasil origina-se de más traduções e de imitações do inglês e do francês. A docilidade do brasileiro à intrusão lingüística é produto da miséria vocabular da maioria dos brasileiros e de sua incultura em português; do menosprezo do brasileiro comum para com suas cultura e idioma; do despreparo de tradutores, jornalistas e universitários.
Os livros Os estrangeirismos (de Cândido de Figueiredo) e Educação lingüística (de Arthur Virmond de Lacerda Neto) contêm listas explicadas de estrangeirismos e dos correlatos vernacularismos.
Educação lingüística examina dezenas de estrangeirismos, cujos substitutos aduz. Está à venda na Amazon, em edição cibernética e imprimível (com 580 páginas).
[1] Cândido de Figueiredo, Os estrangeirismos. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1956, p. 5.
[2] Rui Barbosa, Réplica (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1986, II, p. 731).
[3] Manuel Monteiro. Por amor à língua (Lisboa, Objectiva, 2018, p. 88).

Arthur Virmond de Lacerda Neto é um cultor da língua portuguesa e herdeiro espiritual de Cândido de Figueiredo.









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